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Crianças angolanas ganham mil bonecas feitas pelas mulheres da Comunidade Betel de Jacarei, em apoio ao projeto da Cia de Artes Nissi – “Aldeia Nissi”, em Kuito-Bié.

Publicado em 18 de novembro de 2017

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Para contar essa linda história de voluntariado, conversamos com a advogada e pastora, Silvana Rennó da igreja Comunidade Evangélica Betel de Jacareí.

 

Reportagem: Como surgiu essa parceria entre vocês e o grupo teatral de Ibiúna?

Silvana: Eu tinha um sonho de fazer aulas de teatro, e vi esse sonho se realizar em Ibiúna, pelas oficinas ministradas pela Cia de Artes Nissi – um grupo de jovens voluntários em tempo integral que levam a Palavra através das artes, ligado ao diretor e ator Caíque Oliveira. Participando das oficinas do Encontrart, percebi que no final de cada peça, era estendida a bandeira de Angola, nela acontecia a arrecadação de dinheiro, destinado para a Aldeia Nissi, que fica na cidade de Kuíto, na província do Bié.. Local este onde iniciou-se a construção da escola Sebastiana Garcia, por iniciativa deste projeto sério e corajoso, onde todo dinheiro arrecadado, é cem por cento, revertido para esta finalidade, ou seja, na educação de crianças carentes, que não só estudam no local, mas que também recebem 3 refeições, e o mais lindo, crianças com um passado desolador, mas que viram neste projeto a oportunidade de voltar a sonhar!

Reportagem: E como veio a ideia de fazer bonecas e distribuí-las, para essas crianças?

Silvana: Temos em nossa igreja, todas as quartas feiras, oficina de costura dirigida pela Lucia Pena, um grupo chamado “Mulheres de fé”, que se unem para aprender a fazer atividades manuais como Patchwork e outras habilidades; lá elas aprendem se divertem, e muitas vezes, se distraem com os problemas diários de relacionamento.
Quando vi o trabalho com as lindas bonequinhas de pano, pensei em quão lindo seria se conseguíssemos mandar estas bonequinhas para Angola. A Lucia ficou mais animada que eu e junto com seus voluntários, abraçou a ideia e assumiu a confecção das mil bonecas! Então, mandei as fotos para o Caique, que se encantou com o projeto, e para minha surpresa, eu não teria que mandar as bonecas! A convite dele, eu teria que fazer a entrega e conhecer a escola, os professores, e voluntários que trabalham no local, oportunizando um futuro melhor para estas crianças. Carência essa financeira e social, jamais afetiva, pois o povo de lá é extremamente amoroso.
Pois bem, lançado o desafio para essas mulheres maravilhosas, os jovens e até as crianças participaram no processo de confecção das bonequinhas. Até mesmo a Escola Recriar apoiou o projeto e mandou lindas cartinhas para as crianças de Angola, além de colocar a mão na massa, recheando as bonequinhas com muito amor!

Reportagem: Como foi sua chegada em Angola? Silvana começou sua resposta rindo.

Silvana: Não vivi essa aventura sozinha, Charles que é missionário voluntário da Cia de Artes Nissi, me acompanhou nesta viagem, eu com as mil bonecas e ele com seus pincéis e tintas que estão colorindo as paredes da Escola Sebastiana Garcia. Passamos alguns sustos na alfândega, eu estava bem ansiosa, com duas malas enormes, imagine só mil bonequinhas espremidas dentro delas, e eu com uma na mão, e a pasta do projeto, para mostrar o que carregava. Fiquei retida por mais de uma hora na alfândega em Luanda e no Huambo, respondendo qual era a finalidade daquelas bonecas, mas tinha toda documentação em ordem, com a carta convite da escola provando ser um trabalho voluntário, uma doação, sem fins lucrativos.
Finalmente, quando cheguei em Kuito, descansei e pela manhã, depois de ser recepcionada com um lanche, pude finalmente conhecer a escola e as crianças.

Reportagem: Como foi a recepção das crianças, em especial as meninas?

Silvana: Indescritível, e ao mesmo tempo impactante. A falta de estrutura financeira, e a carência de necessidades básicas, fazem daquele povo, mesmo com tantas provações, gente feliz, carismática, amorosa e extremamente educada.
As crianças me cobriam de carinho, de amor, desde os pequeninos, até os jovens e adultos. A educação deles, eu diria que é incomparável, com relação aos outros países.
Quando expliquei dentro da escola, que trouxera somente as bonecas para as meninas, e em meu próximo retorno, pensaria em alguma coisa para os meninos, eles ficaram felizes mesmo assim. E a cada boneca entregue, os meninos batiam palmas, compartilhando a alegria das meninas. Fomos também a um asilo, foi uma verdadeira festa, podíamos ver o brilho nos olhos daqueles senhores e senhoras, tão alegres e cheios de cores, em “sua melhor idade”, recebendo nossas bonecas.

Reportagem: O que você viu, que mais marcou nessa viagem?

Silvana: Encontrei crianças amorosas, voluntários dedicados, mas o que me marcou mesmo, foi ver um rapaz de 21 anos, que mora na casa missionária que fica na escola, o Raul. Lá é muito comum eles terem feridas que chegam a comprometer de tal forma a saúde, que é necessário amputação. E foi o que aconteceu com ele. Mas fiquei impactada, vi o Raul passando pano na cozinha e fazendo o almoço, descascando batatas, tudo com apenas um braço, e um sorriso lindo! Um jovem que sonha e que graças a este projeto, hoje pode ver seu sonho se tornar realidade!
Ele deseja demais fazer uma faculdade. Em geral os jovens de lá ficam indignado em saber que no Brasil, mesmo com maiores condições financeiras, e tecnológicas, há jovens que simplesmente não querem continuar seus estudos, ou quando o fazem, não tem dedicação.
Foi então que compreendi a paixão do Caique por este Projeto Humanitário 100% Brasileiro, que por sua seriedade e resultados, hoje tem o apoio e a parceria do governo de Angola. Quem quiser conhecer mais e até mesmo ajudar, pode conferir no site: www.aldeianissi.com.
“Termino dizendo o seguinte”; levei para aquelas meninas lindas esse presente, conheci um povo que apesar de viver em situação de pobreza, de um passado assolado pela guerra civil, carregavam alegria e esperançaem seus corações. Voltei de lá renovada, e com muita alegria,reconhecendo em nosso Brasil, um povo solidário e parceiro, agradeço de coração às “Mulheres de fé”, aos demais voluntários, à Escola Recriar, e aos irmãos da Betel, que apoiaram e abraçaram esta causa. Em especial, sou grata ao Caique Oliveira, pois através dele pude ver e viver de perto esta experiência maravilhosa. Enfim, agradeço a minha família, meu esposo Gustavo e meus meninos, Davi e Jonas, pois sem oincentivo e aprovação deles, nada seria possível. E a Deus, por sua bondade em me proporcionar este tempo tão maravilhoso em Angola.

Reportagem: E para o futuro, pensa em voltar?

Silvana: Se depender da minha vontade, e se assim Deus permitir, com certeza voltarei, e quero levar mais pessoas comigo, para ver dentro desse contexto, a polaridade entre um local onde a pobreza e a desesperançase instalou, mas a fé e alegria de um povo, e a dedicação de voluntariados, vêm mudando essa história, “RECONSTRUINDO CRIANÇAS QUE SONHAM”.

 

Texto: Célia Bicudo

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