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Mercado brasileiro navega entre juros altos, tensão geopolítica e recorde de inadimplência

Publicado em 3 de setembro de 2026

 

 

 

Por Welinton dos Santos — Economista e Contador

O mercado financeiro brasileiro atravessa um momento de contrastes. Enquanto o Ibovespa supera os 185 mil pontos, impulsionado por Vale, Itaú Unibanco e Petrobras, o país bate recorde histórico de inadimplência, com 83,9 milhões de pessoas físicas negativadas — cerca de 50% da população adulta, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa de agosto de 2026.

Bolsa e câmbio

O Ibovespa avançou forte na última quarta-feira, com destaque para a Azzas 2154 (AZZA3), maior grupo de moda da América Latina — fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma —, cujas ações dispararam 13% após anúncio de reorganização societária. A Magazine Luiza saltou 22% com parceria comercial firmada com o Mercado Livre. O volume financeiro do pregão somou R$ 12,8 bilhões. O dólar, por sua vez, recuou 0,93%, fechando a R$ 5,104, com o Boletim Focus projetando a moeda em R$ 5,15 ao fim de 2026.

Ouro e petróleo

O ouro oscilou entre US$ 4.334,61 e US$ 4.414,60 por onça-troy, acumulando alta de 6,89% no mês e 22,63% em 12 meses, refletindo o embate entre pressão inflacionária e a expectativa de alta de juros nos EUA — hoje precificada em cerca de 70% de probabilidade pelo mercado. O petróleo segue pressionado pela escalada entre Estados Unidos e Irã, após ataque americano no Estreito de Ormuz e retaliação iraniana contra Emirados Árabes Unidos e Jordânia, o que beneficia Petrobras e Prio na bolsa brasileira.

Juros, inflação e PIB

A Selic está em 14% ao ano, com o Focus projetando trajetória de queda gradual até a faixa de 9,5% a 10,5% em 2027. O IPCA é estimado entre 4,0% e 4,1% para 2026, dentro do teto da meta de 4,5%. Já o PIB brasileiro deve crescer entre 1,8% e 1,9% em 2026, segundo projeções de mercado.

Inadimplência: o dado mais preocupante

O contingente de inadimplentes saltou de 59 milhões em 2016 para 83,9 milhões em 2026, alta de mais de 38% em dez anos. A dívida média por consumidor soma R$ 6.700 a R$ 6.900, totalizando mais de R$ 570 bilhões em débitos vencidos, distribuídos em cerca de 338 milhões de dívidas. Quase metade dos inadimplentes (48%) recebe até um salário mínimo, e 42% já estavam nessa condição há dez anos — evidência de um problema estrutural, e não conjuntural, do endividamento das famílias brasileiras.

O quadro atual combina bolsa em alta, câmbio relativamente estável e commodities pressionadas pelo cenário geopolítico externo, mas o país carrega um passivo social relevante: metade da população adulta negativada, mesmo em ciclo de queda de juros. Os próximos meses serão decisivos, com a decisão do Federal Reserve sobre juros nos EUA e o desfecho da tensão no Oriente Médio como principais vetores externos, e o resultado do programa Desenrola Brasil como termômetro interno da capacidade de reversão desse quadro.

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